27 julho 2020

MoodUp - FCT Research4Covid

Lidar com o Cancro e a COVID-19

MoodUp - FCT Research4Covid

Os doentes oncológicos são uma das populações de risco particularmente vulneráveis à atual pandemia de COVID-19, geralmente devido à imunidade comprometida que tanto pode ser causada pela própria doença oncológica como pelo tratamento. No entanto, com o passar do tempo, o foco deixa de ser exclusivamente nos possíveis efeitos físicos da pandemia mas também no bem-estar mental desses doentes, que previamente já estariam a lidar com circunstâncias geradoras de ansiedade. Para esse fim, a iniciativa FCT Research4Covid financiou recentemente a criação do MoodUp: uma plataforma digital destinada a doentes em tratamento oncológico, para acelerar o acesso a cuidados de saúde mental durante esta pandemia: a investigadora da Champalimaud Research, Diana Frasquilho, que liderou este projeto, dá-nos mais algumas informações acerca do MoodUp e da sua importância no contexto atual.

O que esteve na génese deste projeto?

A pandemia de COVID-19 é a maior crise de saúde pública da nossa história recente e as autoridades de Saúde Pública têm alertado para os seus efeitos na saúde mental da população, à medida que as pessoas são forçadas a lidar com o trabalho interrompido, com mudanças profundas nas vidas pessoais e sociais, nas dinâmicas familiares e nas suas economias face a um futuro incerto. A prevalência de sintomas de ansiedade e depressão, clinicamente relevantes, provavelmente aumentará na população em geral, mas alguns grupos estão em maior risco. Populações vulneráveis incluem pessoas com problemas de saúde física e / ou mental pré-existentes.

Os doentes oncológicos apresentam maior risco de contrair a COVID-19, pois o seu sistema imunológico pode estar comprometido. Por outro lado, são igualmente doentes que apresentam taxas mais elevadas de depressão e ansiedade, comparativamente com a população em geral, o que é compreensível quando se lida com doenças graves. Em Portugal, esta questão pode ainda ser exacerbada pelo facto de a prevalência de perturbações de ansiedade e depressão na população em geral ser muito alta (16% e 7,9% respectivamente*). Portanto, é necessário aumentar a capacidade de assistência à saúde mental dos nossos doentes, durante a pandemia, para garantir o seu bem-estar.

O MoodUp irá possibilitar a adoção rápida de ferramentas de eSaúde e a reorientação das equipas de cuidados oncológicos e de neuropsiquiatria com vista a aumentar e tornar mais rápida a capacidade de assistência na saúde mental. Desta forma, poderemos melhorar a gestão de doentes de alto risco, no contexto da pandemia de COVID-19 (e crises futuras), promovendo elos de ligação entre as equipas prestadoras de cuidados e, se possível, criando um modelo que possa ser replicado por outras instituições do sistema nacional de saúde.

Qual é o impacto esperado deste projeto?

Esperamos que a plataforma MoodUP ajude na identificação dos casos não diagnosticados de depressão e ansiedade e facilite o seu tratamento, bem como melhore os resultados de saúde dos doentes. Também pretendemos fornecer uma plataforma de software que possa ser adaptada ou expandida independentemente dos contextos de cuidados de saúde e investigação, facilitando assim a transferência de conhecimentos entre instituições do sistema nacional de saúde. Além disso, esperamos otimizar os cuidados prestados de forma remota e alcançar um maior número de doentes com outras doenças crónicas. A plataforma funcionará como um motor para a promoção do conhecimento científico e tecnológico colaborativo em saúde mental em contexto de doença oncológica e poderá ser distribuída e/ou expandida como ferramenta digital para melhorar a gestão e prestação de cuidados em saúde mental, não apenas no âmbito da pandemia de COVID-19, mas também em futuras crises.

Qual é o processo desenhado para alcançar os objetivos e quais os principais desafios que se apresentam?

Os serviços de saúde precisam de se adaptar rapidamente ao "novo normal" e reagir aos desafios desta pandemia. Na plataforma MoodUP, os pacientes serão 1) rastreados relativamente a sintomas de ansiedade e de depressão; 2) triados mediante a gravidade dos seus sintomas e 3) com base num algoritmo, haverá uma correspondência entre as intervenções possíveis e a gravidade dos seus sintomas.

O principal desafio é o ambiente em constante mudança em que vivemos. As tecnologias de informação evoluem a uma enorme velocidade e as evidências científicas sobre a pandemia têm vindo a aumentar. A equipa envolvida neste projeto desenvolverá por isso, um esforço contínuo de monitorização e integração dos mais recentes desenvolvimentos científicos e tecnológicos.

Qual a mensagem principal que podemos retirar deste projeto?

É crucial uma melhor integração da saúde mental nos cuidados regulares prestados a doentes oncológicos, agora mais do que nunca. Este projeto baseia-se no conhecimento multidisciplinar de uma equipa que inclui médicos, psicólogos, investigadores em cancro e saúde mental, e gestores de doentes. O MoodUP será uma solução inovadora para ajudar a solucionar uma lacuna existente relacionada com a assistência à saúde mental em oncologia no contexto da atual pandemia global e possibilitará uma melhor preparação em caso de crises futuras.

*Antunes A, Frasquilho D, Azeredo-Lopes S, Neto D, Silva M, Cardoso G, et al. Disability and common mental disorders: results from the World Mental Health Survey Initiative Portugal.European Psychiatry. 2018;49:56-61.doi: https://doi.org/10.1016/j.eurpsy.2017.12.004.

A criação e implementação do MoodUp envolve médicos e investigadores do Centro Clínico Champalimaud, em colaboração com Fernando Ferreira da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa (FCT NOVA).