26 Junho 2026

A celebrar cinco edições do Ciência di Noz Manera

"Descobri que os cientistas estão ligados aos médicos.
Eu não sabia disso.
Achava que os médicos eram médicos e que os cientistas faziam coisas como ir à Lua.
Foi muito interessante perceber que, afinal, podem trabalhar juntos."

Esta reflexão, partilhada por um dos alunos que participou na 5.ª edição do Ciência di Noz Manera (CNM), Ciência à Nossa Maneira, em crioulo cabo-verdiano, capta o espírito de um programa concebido para aproximar a ciência dos jovens e alargar a sua compreensão do mundo que os rodeia.

Desde 2021, o CNM tem promovido a curiosidade científica, a confiança e a capacitação de estudantes provenientes de comunidades desfavorecidas da Grande Lisboa, através de experiências práticas, interações com cientistas e relações de mentoria sustentadas ao longo do tempo. 

A 5.ª edição teve início em fevereiro de 2026, com a sessão introdutória para todos os alunos do 8º ano na Escola Dr. Azevedo Neves, na Amadora. Em março, cerca de 100 alunos participaram num conjunto de atividades realizadas na Fundação Gulbenkian Institute for Molecular Medicine (GIMM), em Oeiras, e na Fundação Champalimaud, em Lisboa. Estas sessões proporcionaram aos estudantes a oportunidade de explorar conceitos científicos, visitar ambientes de investigação e conhecer cientistas.

Deste grupo inicial, cerca de 25 alunos decidiram, de forma voluntária, avançar para a terceira e mais exigente fase do programa: um percurso de mentoria com a duração de três meses, realizado entre abril e junho, na sua escola.

Trabalhando de perto com os seus mentores, os alunos desenvolveram projetos criativos inspirados pela ciência e pela saúde. As ideias incluíram um jogo de cartas sobre ADN, ARN e proteínas, a conceptualização da Pink Nurses Academy, uma academia de formação para enfermagem especializada em cancro da mama, e a criação de uma banda desenhada protagonizada por um super-herói capaz de regenerar órgãos humanos.

Mais do que os projetos em si, as sessões de mentoria criaram um espaço de diálogo, exploração e aprendizagem mútua. Os estudantes foram incentivados a fazer perguntas, a desafiar pressupostos e a refletir sobre as possibilidades futuras para si próprios e para as suas comunidades.

Alguns terminaram o programa com um interesse renovado pela ciência: "Consigo imaginar-me a ser cientista." Outros encararam a experiência como uma oportunidade para pensar de forma mais ampla sobre o seu futuro: "Foi fixe pensar em todas as oportunidades que podemos ter no futuro. Só temos de as agarrar." E houve também quem mantivesse outras ambições, sem deixar de considerar a ciência como uma possibilidade: "Eu, cientista? Se o futebol não resultar, talvez escolha a ciência."

Nem todos os alunos saíram do programa a querer ser cientistas e esse nunca foi o objetivo. O mais importante é criar oportunidades para explorar, descobrir e fazer escolhas informadas.

A fase de mentoria não teria sido possível sem o empenho dos mentores da Fundação GIMM e da Fundação Champalimaud, que fizeram um trabalho incrível no sentido de despertar a curiosidade, reforçar a confiança e alargar horizontes. Ao longo do processo, os próprios mentores adquiriram novas perspetivas através da formação em comunicação de ciência e mentoria do CNM e, sobretudo, através das múltiplas e enriquecedoras interações com os estudantes.

As palavras dos alunos na sessão final revelaram o impacto que esta experiência teve neles. Entre as várias mensagens partilhadas, destacou-se - o agradecimento aos mentores “Espero que os mentores se tenham divertido e sentido tanta alegria como nós ao trabalhar com eles” e uma reflexão simples, mas poderosa, sobre a importância da ciência - “Para mim, sem cientistas, o mundo não evoluiria”.

Um dos momentos mais especiais da última sessão de mentoria foi um reencontro inesperado. Antigos participantes do CNM, alguns agora no 9.º ano e outros já no ensino secundário, regressaram para conhecer os alunos desta edição e partilhar as suas experiências após o programa. Ver estudantes de diferentes edições do CNM reunidos foi uma poderosa demonstração do impacto duradouro do programa.

Cinco edições depois, o CNM continua a demonstrar o valor de uma relação sustentada entre cientistas e jovens estudantes. Desde o seu lançamento, o programa já chegou a mais de 1.000 alunos, trabalhou com quatro escolas TEIP (Territórios Educativos de Intervenção Prioritária) em Lisboa e na Amadora, envolveu mais de 200 cientistas da Fundação GIMM e da Fundação Champalimaud, e contou com financiamento da Comissão Europeia.

Como resumiu um dos alunos numa mensagem final dirigida à comunidade científica:
"A todos os cientistas: continuem o bom trabalho e continuem a descobrir coisas boas."

 

Texto de Catarina Ramos, Co-coordenadora da Equipa de Comunicação, Eventos & Outreach da Fundação Champalimaud.

 

Loading
Por favor aguarde...