O stress oxidativo é uma consequência directa do excesso no corpo dos chamados radicais livres — moléculas reactivas e instáveis que contêm oxigénio. Os radicais livres são subprodutos metabólicos normais e também ajudam a transmitir sinais no corpo. Quanto ao stress oxidativo, pode ser causado por factores de estilo de vida, ambientais e biológicos, como tabagismo, alto consumo de álcool, má alimentação, stress, poluição, radiação, químicos industriais e inflamação crónica. Quando isso ocorre, cria-se um desequilíbrio entre a produção de radicais livres e as defesas antioxidantes do corpo, responsáveis pela sua neutralização.
Quando ouvimos falar de “stress oxidativo” no cérebro, é quase sempre uma má notícia, associada ao envelhecimento, à doença de Alzheimer e a outras doenças neurodegenerativas. Mas um novo estudo em mosca-da-fruta, publicado hoje (10/02/2026) na revista EMBO Reports por uma equipa da Fundação Champalimaud (FC), em Lisboa, mostra que um breve e bem controlado pulso de stress oxidativo, logo após uma lesão, pode realmente ajudar o cérebro a reparar-se.
No novo estudo, Christa Rhiner – investigadora principal do Laboratório de Células Estaminais e Regeneração da FC – e a sua equipa mostram que, após uma pequena lesão no cérebro de moscas adultas, um grupo específico de células de suporte cerebral, conhecidas como glia, liberta rapidamente um pulso de formas quimicamente reativas de oxigénio, que incluem peróxido de hidrogénio (contido na água oxigenada). Esta “faísca oxidativa” controlada faz duas coisas ao mesmo tempo: activa processos antioxidantes protectores na glia e, o que é crucial, age como um sinal de activação de células que normalmente estão inactivas, levando-as a dividir-se e a substituir o tecido perdido.
A equipa identificou a responsável por este pulso de radicais livres: uma enzima chamada Duox, presente na membrana das células gliais, que produz peróxido de hidrogénio fora das células. “Isso foi surpreendente, pois inicialmente pensávamos que as mitocôndrias – as minúsculas baterias das células – seriam as principais geradoras de stress oxidativo no cérebro lesionado”, explica a primeira co-autora Carolina Alves.
Quando Carolina reduziu geneticamente a actividade da Duox ou diminuiu a quantidade de oxigénio reactivo com tratamentos antioxidantes, o cérebro lesionado das moscas produziu menos células novas e a resposta regenerativa foi substancialmente atenuada. Em contrapartida, o facto de estimular a glia para aumentar a actividade da Duox foi suficiente para desencadear divisões celulares adicionais, mesmo na ausência de lesão. Isto significa que, em particular, o peróxido de hidrogénio derivado da glia é um poderoso motor de plasticidade cerebral.
Outras experiências revelaram o circuito desta resposta. A lesão começa por aumentar os níveis de cálcio dentro da glia, o que, por sua vez, activa a Duox. O peróxido de hidrogénio espalha-se então localmente pelos tecidos e ajuda a manter activa uma via pró-regenerativa (de reparação) durante dias após a lesão inicial – o tempo suficiente para promover uma divisão celular sustentada e a reparação. E embora o tecido cerebral lesionado apresente um certo nível de danos oxidativos nos lípidos, o aumento das defesas antioxidantes devido às células gliais parece limitar os danos causados pelo pico oxidativo transitório.
Estes resultados desafiam a ideia simplista de que o stress oxidativo no cérebro é sempre prejudicial e podem ajudar a explicar por que as terapias antioxidantes de amplo espectro não conseguem, em grande parte, melhorar a recuperação cerebral nos doentes após uma lesão.
O stress oxidativo prolongado e, em particular, as espécies reactivas de oxigénio que atacam imediatamente os componentes celulares são altamente prejudiciais para o cérebro. “No entanto, o nosso trabalho sugere que certas espécies reactivas de oxigénio, quando sincronizadas de forma precisa, são parte integrante da caixa de ferramentas da reparação do cérebro”, enfatiza Rhiner.
No futuro, estratégias mais direccionadas, que atenuem o stress oxidativo crónico prejudicial preservando – ou mesmo aproveitando – esses sinais oxidativos de curta duração, poderão abrir novos caminhos para promover a reparação cerebral.
Artigo Científico original da EMBO Reports.
Legenda da imagem: As células que estão a morrer numa área lesionada do cérebro da mosca-da-fruta surgem a cor-de-rosa, enquanto células gliais activadas que produzem proteínas antioxidantes protectoras aparecem a verde.
Texto por Ana Gerschenfeld, Health&Science Writer da Fundação Champalimaud.