06 Julho 2026

Identificados circuitos cerebrais causalmente relacionados com a POC

Na maior parte dos casos, a origem da perturbação obsessivo-compulsiva (POC) é desconhecida, mas, em alguns casos raros, surge após uma lesão do cérebro – como um AVC ou um tumor. Investigadores da Fundação Champalimaud, em Lisboa, identificaram circuitos cerebrais subjacentes a estes casos de POC “lesional”. No mesmo trabalho mostram ainda que a intervenção nestes circuitos, através de técnicas de estimulação cerebral, poderá ajudar a melhorar o tratamento da POC “não lesional” que é, como já referido, muito mais comum.

A perturbação obsessivo-compulsiva (POC) é uma condição neuropsiquiátrica que pode, nas suas formas mais graves, ser extremamente incapacitante. Os sintomas das pessoas que sofrem de POC podem incluir lavar as mãos ou tomar banho repetidamente, verificar incessantemente se desligaram o bico do fogão ou se trancaram a porta de casa. Nos casos mais extremos, estas actividades consomem tanto tempo e energia que os doentes se tornam incapazes de sair de casa, de trabalhar, de desenvolver relações significativas ou simplesmente de interagir com outras pessoas.

Na Fundação Champalimaud, Gonçalo Cotovio e os seus colegas da Unidade de Neuropsiquiatria, liderada por Albino J. Oliveira-Maia, têm vindo a tratar a POC com uma técnica de estimulação cerebral, denominada Estimulação Magnética Transcraniana repetitiva (EMTr - rTMS na sigla em inglês). Nos Estados Unidos, a EMTr foi aprovada para uso na POC pela FDA (a agência federal que regula os medicamentos), com aprovação também na Europa. A EMTr tem permitido o tratamento bem-sucedido de muitos doentes que não respondiam à medicação nem à psicoterapia.

A EMTr é uma técnica não invasiva e indolor, que provou a sua eficácia no tratamento não só da POC, mas também de outras perturbações neuropsiquiátricas, como a depressão resistente aos medicamentos. Nos tratamentos com EMTr, aplica-se uma bobine eletromagnética num local preciso da cabeça do doente, que emite impulsos eletromagnéticos capazes de modificar a actividade neuronal de uma área cerebral abaixo da bobine. A lógica é que a actividade neural dessa área cerebral possa estar a causar os sintomas da doença, e que a sua alteração irá aliviar esses sintomas.

A verdade, no entanto, é que ao tratar a POC com EMTr, não é certo que a área cerebral alvo da estimulação esteja causalmente ligada aos sintomas de POC. As imagens obtidas por ressonância magnética funcional do cérebro de doentes com POC mostram associações entre a presença de sintomas e padrões anormais de actividade. No entanto, esta abordagem não consegue distinguir causa de consequência: será que os sintomas resultam da alteração da actividade, ou que essa alteração de actividade cerebral resulta dos sintomas ou das respostas aos sintomas?

Pelo contrário, é muito mais claro que se alguém que não tinha POC desenvolve os sintomas da perturbação após uma lesão cerebral focal, essa lesão possa estar causalmente implicada na perturbação.

De facto, existem casos raros de POC que surgem após uma lesão localizada no cérebro, por exemplo, um acidente vascular cerebral ou um tumor. Utilizando estes casos de “POC lesional”, Cotovio e a equipa da Fundação Champalimaud, em colaboração com colegas do Massachusetts General Hospital, nos EUA, identificaram, pela primeira vez, os circuitos cerebrais onde poderá residir a causa dos sintomas da POC. Os resultados finais foram publicados hoje (7/7/2026) na revista Biological Psychiatry.

Para procurar esses casos lesionais, os investigadores realizaram uma pesquisa exaustiva da literatura publicada, para identificar descrições de sintomas neuropsiquiátricos com início após lesões cerebrais. Encontraram imagens de lesões cerebrais de 40 pessoas que desenvolveram POC após uma lesão cerebral.

As lesões foram desenhadas e a sua sobreposição foi avaliada num “espaço cerebral” comum, correspondente a um cérebro humano médio. No entanto, não convergiam para uma única região cerebral: os acidentes vasculares cerebrais, os tumores e outras lesões não se situavam no mesmo local, e mesmo as regiões do mesmo tipo estavam amplamente distribuídas pelo cérebro. Os investigadores concluíram então que o resultado comum destas lesões – ou seja, a POC –, poderia residir não na sua localização, mas nos circuitos neurais que as ligam.

Para abordar esta hipótese, utilizaram um método que já tinham aplicado no passado a uma outra condição, a mania, com resultados positivos. As vantagens da utilização deste método em casos psiquiátricos, hoje conhecido como “mapeamento de redes causais” são evidentes, tal como foi recentemente defendido por Cotovio e Oliveira-Maia noutra publicação recente dos dois médicos-cientistas.

Utilizando o conectoma humano – ou seja, a conectividade cerebral funcional média em estado de repouso extraída da ressonância magnética funcional de 1000 indivíduos saudáveis –, foi calculado o “mapa neural” funcional de cada lesão. Os mapas médios das lesões de POC foram comparados com lesões sem associação à síndrome, para extrair os circuitos específicos da POC.

Desta forma, a equipa identificou quatro regiões cerebrais como “centros causais” da POC: o córtex orbitofrontal (OFC na sigla em inglês) e os gânglios da base, de ambos os lados do cérebro. Estes centros estão todos ligados positivamente aos locais das lesões, sugerindo que ficam desconectados após lesões que causaram sintomas de POC, mas não após lesões que não estão associadas a essa perturbação.

“O OFC tem sido associado à forma como avaliamos o que devemos fazer”, diz Cotovio. E há défices dessas funções na POC. “Outros propuseram, e este trabalho apoia esta hipótese, que quando os doentes têm sintomas de POC, o que está a acontecer é que o OFC está a dizer-lhes ‘tens de fazer isto, é muito importante para ti’, mesmo na presença de informação que sugere o contrário.”
Cotovio acrescenta: “Quanto aos gânglios da base, também temos evidência que mostra uma relação com as compulsões. Uma vez iniciado um determinado acto, é muito difícil parar porque este circuito é reforçado para repetir esse acto vezes sem conta – certamente, também, devido às conexões com o OFC.”

A equipa também estava interessada em compreender como este circuito causal estava envolvido na POC em doentes sem lesões cerebrais. Utilizaram primeiro uma ferramenta de software chamada NeuroSynth para analisar dados existentes de ressonância magnética funcional do cérebro de pessoas com POC, mas sem lesões. Confirmaram que os pontos-chave desses estudos de POC não lesional se sobrepunham aos mesmos centros cerebrais associados à POC lesional. Por outro lado, os pontos-chave identificados noutras síndromes que em alguns casos podem acompanhar a POC – tais como a depressão ou a ansiedade – não se sobrepunham ao circuito da POC lesional.

Esta e outras validações, incluindo dados de imagiologia cerebral de doentes com POC obtidos na Fundação Champalimaud, estabeleceram que esses centros neurais são significativos para a POC não lesional, apesar de terem sido derivados do estudo de POC lesional.

Os resultados deste estudo poderão ter implicações na melhoria do tratamento da POC com EMTr ou outros meios de neuromodulação. Na verdade, os investigadores estão agora a completar um estudo clínico nesse sentido, financiado pela Brain and Behaviour Research Foundation (BBRF, uma proeminente organização global sem fins lucrativos e um dos maiores financiadores não governamentais da investigação em saúde mental e neuropsiquiatria. O estudo visa comparar a eficácia, na melhoria dos sintomas clínicos da POC, da estimulação das regiões-alvo habituais da EMTr com a da estimulação da rede de POC lesional recentemente identificada.

“Isso significa que, em última análise – e esse é o próximo passo do projecto – podemos utilizar a nossa rede de POC lesional como uma ferramenta para orientar o tratamento com neuromodulação, em vez de nos basearmos em locais médios”, diz Oliveira-Maia, autor sénior do estudo. “O que também poderá vir a permitir tratamentos mais individualizados, ao seleccionar o ponto de estimulação que, em cada doente, melhor corresponda ao circuito de POC lesional que aqui descrevemos.”
 

Artigo original aqui.


Texto de Ana Gerschenfeld, Health&Science Writer da Fundação Champalimaud
 
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