25 Março 2025

No cancro do intestino, os gânglios linfáticos aumentados podem significar um bom prognóstico

Em reconhecimento do Mês de Sensibilização contra o Cancro Colorretal, Março, destacamos a importância de reavaliar os métodos atuais de estadiamento do cancro colorretal, com base em pesquisas recentes apresentadas na Champalimaud Colorectal Cancer Conference, para melhorar os resultados dos doentes e as estratégias de tratamento.

In bowel cancer, enlarged lymph nodes can be a good prognostic feature

Na Conferência Champalimaud do Cancro Colorrectal, que decorreu em fevereiro, Gina Brown, do Imperial College de Londres, pôs em causa a actual estratégia de estadiamento do cancro do cólon. A investigação mostra que os gânglios linfáticos não são os principais responsáveis pela propagação deste cancro e podem, na verdade, ser um sinal de que o sistema imunitário do doente está a reagir.

Um sistema muito utilizado para determinar o estádio do cancro do intestino a partir de imagens de ressonância magnética (MRI) e tomografia computorizada (CT), com implicações críticas para o tratamento e os resultados, é o chamado TNM (“tumor, gânglios linfático, metástases”). T descreve a profundidade do tumor, N se o cancro se espalhou para os gânglios linfáticos e M se alastrou para outras partes do corpo.

Nos últimos anos, a especialista em imagiologia gastrointestinal Gina Brown, do Imperial College de Londres, “tem desenvolvido métodos de identificação in vivo das vias de disseminação do cancro colorrectal anteriormente desconhecidas ou mal compreendidas”, lê-se no seu website. A investigadora caracterizou os depósitos tumorais e a invasão venosa nas imagens e mostrou que são mais importantes para a propagação do cancro do que os gânglios linfáticos.

“A principal via de propagação do cancro não é através dos gânglios linfáticos, mas através do sistema venoso”, afirmou Brown durante a sua intervenção.
Sabe-se que mais de 90% dos doentes com cancro colorrectal que desenvolvem metástases hepáticas (alguns dos quais podem também ter tido gânglios linfáticos “positivos” para o cancro) têm sinais de tumores no seu sistema vascular, seja no interior das veias ou de nódulos associados ao sistema venoso. “Esta é a via de disseminação – do tumor para a veia e para os nódulos –, e se continuarmos a contentar-nos em chamar-lhes gânglios linfáticos, não estamos a dar a informação prognóstica certa aos doentes acerca do seu risco de recorrência”, sublinhou Brown.

A investigadora foi ainda mais longe ao dizer que os gânglios linfáticos podem, na verdade, representar um bom prognóstico para o cancro colorrectal, porque o seu aumento indica uma forte resposta imunitária do doente. “A nossa compreensão dos processos imunitários que combatem o cancro está apenas no início”, afirmou.

José Azevedo – cirurgião colorretal da Unidade Digestiva da Fundação Champalimaud e um dos organizadores da Conferência – desenvolve esta ideia. “Começámos agora a perceber, pelos indícios que temos, que talvez as diferenças que vemos entre gânglios linfáticos se devam ao facto de alguns desses supostos gânglios serem, na verdade, depósitos tumorais com invasão vascular, que são precisamente os responsáveis pelos piores prognósticos”, diz este especialista.

Mas para melhorar a precisão do estadiamento, os nódulos têm de ser distinguidos dos gânglios linfáticos.

Brown explicou que é fácil identificar por ressonância magnética os doentes com invasão vascular e uma via vascular de disseminação, porque os vasos sanguíneos são anatomicamente óbvios nas imagens – e que, quando os nódulos crescem ao longo dos vasos sanguíneos, trata-se de depósitos tumorais e não gânglios linfáticos.

“Se nos dermos ao trabalho de olhar cuidadosamente para estes nódulos e verificarmos se estão alinhados com uma veia ou não, começamos a ver que nem tudo o que é redondo é um gânglio linfático”, salientou.

Brown defende um sistema de estadiamento diferente, chamado TDV (Tumor, Depósito tumoral, Venoso). Quando a profundidade da intrusão do tumor nos vasos é superior a cinco milímetros, isso significa que há invasão venosa, o que acarreta um mau prognóstico. “Estejam atentos à extensão do tumor dentro dos vasos sanguíneos e resistam à tentação de medir os gânglios linfáticos”, exortou a audiência. “É a ausência de nódulos que dá aos doentes uma vantagem em termos de sobrevivência, bem como um melhor resultado em termos de recorrência.”

A imprecisão do sistema TNM também foi demonstrada no caso do cancro da mama. “Quando se analisam os clones das células do cancro da mama nos gânglios linfáticos”, afirmou Brown, ”verifica-se que o cancro contornou o sistema linfático. Os clones celulares nos gânglios linfáticos não são os mesmos que os que acabam por se transformar em metástases”.

A falta de um bom estadiamento é um problema no cancro do cólon, comentaria mais tarde um outro orador – Tsuyoshi Konichi, cirurgião colorretal actualmente a trabalhar no MD Anderson Cancer Centre. “A Gina explicou muito bem a forma como devemos alterar o actual sistema de diagnóstico”, afirmou. Um gânglio linfático muito aumentado, que convencionalmente poderia ser considerado positivo, acaba muitas vezes por ser um gânglio negativo. Por outro lado, os pequenos tumores, os pequenos depósitos com alguma heterogeneidade e irregularidade, são na realidade depósitos cancerosos que podem passar por gânglios linfáticos positivos.

Joep Knol, também orador e cirurgião colorretal no hospital ZOL, na Bélgica, concordou. “Penso que temos de prestar muito mais atenção aos depósitos tumorais, que têm pior prognóstico do que os gânglios linfáticos”.

Texto de Ana Gerschenfeld, Health & Science Writer da Fundação Champalimaud.
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