A cirurgia é frequentemente a primeira linha de tratamento para o cancro, e várias outras doenças, do pâncreas. É também uma das intervenções cirúrgicas mais complexas da medicina. Uma das complicações mais temidas após a cirurgia é a hemorragia interna, conhecida como hemorragia pós-pancreatectomia. Desde 2007, os cirurgiões de todo o mundo classificam estas hemorragias de acordo com um sistema internacional. Este sistema combina três fatores: quando ocorre a hemorragia, onde ocorre e a sua gravidade.
A equipa, liderada pelo primeiro autor, Filipe C. Borges, e pelo autor sénior, Markus W. Büchler, procurou perceber se este sistema continua, na atualidade, a refletir a realidade clínica. Foram analisados 763 doentes submetidos a cirurgia pancreática no BCPCC entre julho de 2020 e setembro de 2025. Cerca de um em cada oito (91 doentes) apresentou uma hemorragia após a cirurgia. Esta complicação teve consequências importantes para os doentes que apresentaram uma probabilidade muito maior de desenvolver complicações graves e de permanecer internados durante mais tempo.
Os resultados foram surpreendentes. Nem o momento em que ocorreu a hemorragia nem a sua localização tiveram um impacto significativo na evolução dos doentes. As hemorragias classificadas como “ligeiras” segundo o sistema de classificação de 2007 estavam, muitas vezes, longe de o ser. Cerca de 7 em cada 10 destes doentes desenvolveram ainda assim complicações graves, e quase 6% morreram.
“Um sistema de classificação deve dizer aos médicos até que ponto devem estar preocupados, e o sistema atual muitas vezes não o faz”, afirma Filipe Borges. “Queríamos algo mais simples, que refletisse aquilo que realmente acontece ao doente.”
A resposta da equipa é uma classificação baseada numa questão central: quais são as consequências para o doente? Uma hemorragia sem consequências é classificada como sendo de grau A. Estes doentes evoluem de forma semelhante aos que não apresentam qualquer hemorragia, pelo que esta deixa de ser considerada para registo. Quando a hemorragia exige uma intervenção, como uma transfusão de sangue, um procedimento endoscópico, um procedimento minimamente invasivo guiado por imagem ou uma nova cirurgia, passa a ser classificada como de grau B. O grau C fica reservado para hemorragias potencialmente fatais que conduzem à falência de órgãos ou à morte.
Quando a equipa aplicou o novo sistema aos seus doentes, este permitiu distinguir claramente os diferentes níveis de risco. Menos de 2% dos doentes classificados como grau B morreram, em comparação com 30% dos doentes de grau C. Ou seja, o grau mais grave ficou reservado para os doentes que se encontravam realmente em risco de vida.
Estas observações poderão também ser relevantes para outros hospitais. Diretrizes comuns permitem aos cirurgiões de todo o mundo comparar resultados, avaliar novas técnicas e melhorar os cuidados prestados. Um sistema mais simples de usar e que melhor corresponda à evolução dos doentes poderá tornar essas comparações mais fiáveis.
“Este estudo é apenas um começo”, afirma Filipe Borges. “Analisámos retrospectivamente os registos de um único centro, pelo que esta potencial nova classificação precisa agora ser testada noutros hospitais antes de poder ser adotada de forma generalizada.”
Artigo original.
Texto de Teresa Fernandes, Co-coordenadora da equipa de Comunicação, Eventos & Outreach da Fundação Champalimaud