22 Abril 2026
Albino J. Oliveira-Maia
A Neuropsiquiatria Encontra a Inovação Digital
22 Abril 2026
A Neuropsiquiatria Encontra a Inovação Digital
Albino J. Oliveira-Maia é o Diretor da Unidade de Neuropsiquiatria da Fundação Champalimaud e Professor de Psiquiatria e Neurociências na NOVA Medical School, em Lisboa. É também Presidente-Eleito da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, Presidente do Conselho Científico da Fundação Portuguesa de POC (Perturbação Obsessivo-Compulsiva) e Presidente da Comissão de Ética do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD). Desde 2018, coordena o Grupo de Trabalho de Psiquiatria do Gabinete para o Exame Nacional de Acesso à Especialidade, na Ordem dos Médicos.
Com vasta experiência na integração de soluções tecnológicas emergentes nos cuidados aos doentes, Albino embarcou recentemente num novo capítulo, juntamente com o neurologista Marcelo Mendonça, como diretor do Digital Neurotherapeutics Centre (DNTx Centre), na Fundação Champalimaud – um espaço dedicado ao avanço da psiquiatria através de inovação rigorosa e centrada no doente.
Nesta entrevista, Albino reflete sobre o seu percurso na neuropsiquiatria, a evolução da especialidade e a forma como as ferramentas digitais podem complementar e expandir os cuidados centrados no ser humano, nunca para os substituir.
O meu percurso não foi linear. Comecei, na verdade, na neurociência. Na faculdade de medicina, sentia-me fascinado pela forma como a estrutura e a função do cérebro moldam a doença e o tratamento. A neurologia tornava isto muito tangível e acreditei que esse seria o meu caminho. No entanto, durante o meu doutoramento na Universidade de Duke, fiquei imerso na investigação psiquiátrica e comecei a frequentar reuniões clínicas de psiquiatria. Foi então que se tornou claro para mim que a separação entre "neurologia" e "psiquiatria" é largamente artificial; um produto da formação, não da biologia. Na realidade, ambas as áreas se focam no mesmo órgão, regido pelos mesmos mecanismos. Quando regressei a Portugal, após concluir o doutoramento em neurociência, a neuropsiquiatria tornou-se o espaço natural para mim na medicina.
Tradicionalmente, a neuropsiquiatria é entendida como a psiquiatria aplicada a doentes com doenças neurológicas, abordando as necessidades de saúde mental em condições como a epilepsia, as doenças de Parkinson ou de Alzheimer. Mas na Unidade de Neuropsiquiatria da Fundação Champalimaud, a nossa abordagem é mais abrangente. Reunimos psiquiatras e psicólogos com sólida formação em neurociências e neurologistas que reconhecem as dimensões psiquiátricas dos cuidados aos seus doentes. Os doentes são acompanhados por diferentes especialistas de uma forma profundamente interconectada. Os casos são discutidos coletivamente e os cuidados evoluem à medida que as necessidades dos doentes mudam. O cérebro não obedece a fronteiras disciplinares – por isso, nós também não o devemos fazer.
Elas são inseparáveis. O nosso trabalho na Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC) é um bom exemplo. Começou como uma questão de investigação, inspirada no trabalho realizado em modelos animais: como estudar a tomada de decisão e o controlo da ação em doentes aos quais prestava cuidados clínicos?
A lacuna entre o que a investigação sugeria e os cuidados que os doentes recebiam era flagrante. Quando o pilar clínico da nossa unidade foi estabelecido, a POC tornou-se uma prioridade. Desenvolvemos avaliações estruturadas, implementámos um programa de Estimulação Magnética Transcraniana (TMS) e integrámos a psicoterapia nos percursos de cuidados. A investigação informou a prática clínica e os desafios clínicos alimentaram diretamente a investigação. Hoje, o programa de POC continua a evoluir. Em particular, o nosso trabalho recorre atualmente à IA, permitindo personalizar a provocação de sintomas e melhorar a terapia de exposição para estes doentes.
Tratamos doentes com doenças neurológicas primárias que necessitam de cuidados psiquiátricos e psicológicos, bem como doentes psiquiátricos que possam beneficiar de acompanhamento neurológico ou de uma abordagem informada pela neurociência. Embora o ponto de entrada clínico – neurologia ou psiquiatria – possa ser claro, o caminho a seguir muitas vezes não o é. Um doente pode começar com um neurologista como o Marcelo Mendonça e depois transitar para cuidados psiquiátricos, ou vice-versa. A chave é a flexibilidade, a decisão partilhada e a comunicação. O nosso objetivo é evitar silos e manter o doente no centro.
O ponto de viragem foi reconhecer como a tecnologia poderia ajudar a colmatar lacunas reais nos cuidados. Voltando ao mesmo exemplo, na POC, a provocação de sintomas durante a utilização de TMS é tradicionalmente morosa e difícil de ajustar à medida que os sintomas evoluem. Com o apoio da IA generativa, esperamos personalizar este processo de forma dinâmica, sob supervisão clínica. Esta é a promessa das neuroterapêuticas digitais: tornar os tratamentos mais acessíveis, adaptáveis e eficazes.
Para muitos doentes, significa mais opções de tratamento e, para alguns, acesso a cuidados que não tinham anteriormente. Alguns continuarão a preferir uma terapia totalmente presencial, outros poderão optar por ferramentas digitais que complementam as abordagens tradicionais e delas beneficiar. No entanto, este equilíbrio deve basear-se na evidência. Se uma intervenção digital for segura, eficaz e rigorosamente testada, deve fazer parte do nosso arsenal terapêutico. Ainda assim, a componente humana permanece insubstituível. A confiança, a responsabilidade e a relação terapêutica continuam no centro da medicina e da psicologia. A tecnologia pode potenciar estes pilares, mas não os pode substituir.
A fronteira entre ambos é fluida. Partilham pessoas, projetos e propósitos. No papel, alguém pode pertencer a um laboratório ou à "clínica" mas, na prática, trabalha em ambos os contextos. O Centro DNTx é uma estrutura separada, mas também uma evolução do que já existia: um espaço para desenvolver, testar e implementar ferramentas digitais em paralelo com os cuidados clínicos estabelecidos. Nesta transição, quando convidei membros da Unidade a refletirem sobre o seu trabalho e aspirações, muitos alinharam-se naturalmente com esta visão. Esse sentido de propósito partilhado é o que torna o Centro possível.
Na Unidade [de Neuropsiquiatria], já colaboramos estreitamente com a indústria através de ensaios clínicos, ciência de descoberta e acesso precoce à inovação. O novo Centro DNTx expande estas atividades. O objetivo é ser um parceiro para empresas que desenvolvem neurotecnologias, oferecendo um ambiente clínico real onde as ferramentas podem ser validadas, aperfeiçoadas e implementadas de forma responsável. Isto inclui neuromodulação, intervenções digitais e ferramentas baseadas em IA.
Somos uma mistura genuinamente interdisciplinar. Precisaremos de clínicos, neurocientistas, psicólogos, a par de especialistas em IA, engenheiros e empreendedores. O nosso programa de POC já reflete este modelo: reunindo psicólogos, técnicos de TMS, psiquiatras e, agora, cientistas de IA. O Centro irá atrair pessoas que se sentem confortáveis a trabalhar entre disciplinas e motivadas por desafios clínicos complexos.
Nos próximos anos, espero que possamos ajudar a estabelecer padrões de segurança, eficácia e regulação neste domínio. A minha ambição é que este Centro sirva de modelo sobre como a academia, a indústria e a prática clínica podem trabalhar juntas para levar inovação com impacto real aos doentes.
De forma mais ampla, vejo a psiquiatria a evoluir em estreita relação com a tecnologia e não de forma isolada. Os clínicos e as startups trazem, cada um, algo essencial: profundidade de compreensão de um lado, agilidade e capacidade de execução do outro. Quando trabalham juntos, os cuidados podem ser verdadeiramente melhorados.