Há uma frase do artista britânico David Shrigley que diz: “I had no interest in it then I looked inside and now I'm enchanted by it.” Por outras palavras, é difícil interessar-nos verdadeiramente pelo que não conhecemos. Primeiro é preciso poder espreitar. Aproximarmo-nos. Explorar. Fazer perguntas. E, às vezes, é nesse momento, quando aquilo que parecia distante se torna tangível, que começa o encantamento.
Com a ciência acontece o mesmo.
Mas e se, desta vez, em vez de espreitar para dentro de um laboratório, pudéssemos provar o que lá acontece? Foi esse o convite da segunda edição do Science Kitchen, que juntou na Fundação Champalimaud cinco investigadores e cinco chefs para transformar investigação científica numa experiência gastronómica.
Durante vários meses, as cinco duplas atravessaram as fronteiras dos seus mundos: os chefs entraram nos laboratórios, os investigadores nas cozinhas. Observaram métodos, trocaram perguntas e experimentaram linguagens diferentes. No final, o ponto de encontro foi um menu de degustação construído a partir de questões que a investigação ainda procura compreender.
E se uma pergunta científica pudesse ser servida num prato?
Como podemos tornar visível aquilo que distingue células tumorais umas das outras? O que acontece no cérebro quando sentimos medo? Como se constroem as nossas preferências alimentares e que papel desempenham o prazer e a memória? Como sentimos a proteína e decidimos o que comer? E de que forma aquilo que fazemos ao longo da vida pode influenciar o risco de desenvolver cancro?
As respostas não estavam no menu. As perguntas, sim.
O chef Diogo Formiga e o investigador Carlos Ribeiro partiram da pergunta “como sente um animal o sabor da proteína e decide o que comer?” para chegar a uma entrada de cogumelos e caldo de levedura e a uma reflexão sobre proteína vegetal sustentável.
A chef Joana Duarte e a investigadora Rita Fior transformaram o diagnóstico oncológico num prato de lula, ervilhas e algas alusivo à técnica de biomarcação.
O stress e a sobrevivência foram o território explorado pelo chef Alexandre Silva e pela investigadora Marta Moita, que criaram um prato de peixe inspirado na investigação sobre a resposta cerebral dos animais ao medo.
Na saúde mental, o chef Luís Gaspar e o psiquiatra e investigador Joaquim Alves da Silva trabalharam a “Memória do Sabor”, explorando a relação entre prazer, corpo, cérebro e memória na forma como construímos as nossas preferências alimentares.
E, na prevenção do cancro da mama, as chefs Lara Figueiredo e Daniela Ferreira, juntamente com o médico oncologista e investigador Andrea De Censi, criaram uma sobremesa não inflamatória, sem açúcares.
Cinco pratos. Mas, sobretudo, cinco formas de tornar uma pergunta científica menos abstrata.
À primeira vista, uma cozinha e um laboratório pertencem a mundos diferentes. Mas, tal como escreveu David Shrigley, basta olhar um pouco mais de perto. Há bancadas, instrumentos e matérias-primas. Há protocolos, precisão e técnica. Há hipóteses que funcionam e outras que obrigam a começar de novo. Há observação, tentativa, erro e repetição. E há, nos dois lugares, uma incrível curiosidade sobre aquilo que ainda não se sabe.
“Este encontro prova que a cozinha e o laboratório partilham várias linhas de pensamento”, explica Carlos Ribeiro, investigador da Fundação Champalimaud e coordenador do Science Kitchen. Para além das semelhanças mais visíveis “da jaleca e da bata às bancadas de trabalho”, os dois universos partilham um espírito de investigação, perceber de que forma cada elemento contribui para um resultado que se vai construindo através da experiência.
Para Paulo Amado, fundador das Edições do Gosto e também coordenador do Science Kitchen, esta aproximação é igualmente uma oportunidade para pensar de outra forma a relação entre cozinha e saúde. Chefs e cientistas, diz, acabam por enfrentar desafios semelhantes: “compreender, prever, fazer acontecer”. Ambos trabalham perante o desconhecido e ambos experimentam para avançar.
O Science Kitchen nasceu em 2025 de uma conversa entre Carlos Ribeiro e Paulo Amado. Um ano depois, regressou à Fundação Champalimaud para uma segunda edição, continuando a explorar o que pode acontecer quando ciência e gastronomia deixam de estar apenas lado a lado e passam verdadeiramente a entrar uma no mundo da outra.
Porque aproximar as pessoas da ciência talvez não passe apenas por encontrar maneiras mais simples de explicar aquilo que já sabemos. Pode passar também por lhes dar acesso ao que ainda não sabemos. Às perguntas. À experimentação. À curiosidade que põe uma investigação em movimento. Às vezes, a porta de entrada é a de um laboratório. Outras vezes, é um prato.
Texto de Catarina Ramos, Co-Coordenadora da equipa de Comunicação, Eventos & Outreach da Fundação Champalimaud.
Fotografia de Alexandre Azinheira, Plataforma de Multimedia da Fundação Champalimaud