Redefinir os cuidados em saúde cerebral e mental através de neurotecnologias - do Alzheimer ao AVC, da Perturbação Obsessivo-Compulsiva à depressão - é o objetivo assumido do novo Centro de Neuroterapêuticas Digitais (DNTx), que abriu portas ao público na Fundação Champalimaud (FC), no passado dia 18 de maio.
A inauguração do DNTx contou com a presença do Conselho de Administração da FC, tendo Rui Costa dado início ao evento e Leonor Beleza, Presidente da Fundação Champalimaud, encerrado a sessão. Ambos sublinharam a importância estratégica do novo centro para o avanço e a transformação da investigação em neurociências na Fundação Champalimaud.
Foi destacada a missão de longa data da Fundação de promover e apoiar investigação transformadora desenvolvida a partir, com e para os doentes, bem como o seu programa de excelência internacional em neurociência fundamental. Neste contexto, o Centro DNTx foi apresentado como um novo passo na missão mais ampla da FC; consolidando a investigação em neurociências e os cuidados clínicos dirigidos a doentes com perturbações cerebrais e mentais.
Segundo a OMS, as doenças e incapacidades relacionadas com o cérebro representam atualmente a principal ameaça à sociedade humana. Porque é necessária a criação de novos tratamentos baseados em neurotecnologia? John Krakauer, co-diretor, juntamente com Joseph Paton, do recém-criado Champalimaud Institute for Brain Research and Repair (que integra o Centro DNTx, o Neurotechnology Warehouse, o Champalimaud Neuroscience Programme e o novo Neuroscience of Disease Programme), explicou que “os problemas neurológicos e psiquiátricos não foram, nem serão, resolvidos apenas pela farmacologia. Apesar de inúmeras tentativas, não existe um comprimido capaz de ajudar na recuperação após um AVC. No caso do Alzheimer, os benefícios dos mais recentes ensaios com anticorpos anti-amilóide têm sido praticamente marginais. E o mais recente ensaio clínico com terapias anti-alfa-sinucleína para a doença de Parkinson teve resultados negativos”.
“A psiquiatria enfrenta igualmente dificuldades no desenvolvimento de tratamentos farmacológicos, presos num bloqueio mecanístico”, acrescentou.
Estimulação do cérebro
A psiquiatria está, no entanto, a abrir caminho através da neurotecnologia. Uma dessas neurotecnologias, já aprovada para o tratamento da depressão resistente e para a qual existe um número crescente de resultados promissores, é a estimulação magnética transcraniana não invasiva (TMS).
O tratamento da depressão com TMS decorre desde 2018, sob a liderança do neuropsiquiatra Albino J. Oliveira-Maia, Diretor do Centro DNTx, tendo já abrangido mais de 200 doentes, entre doentes tratados e atualmente em tratamento.
A técnica consiste na aplicação de um campo magnético numa área específica do couro cabeludo do doente, gerando correntes elétricas capazes de estimular regiões cerebrais associadas à depressão e cuja atividade se encontra alterada nesta perturbação.
A TMS está agora também a ser testada noutras condições, como a Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC) e a mania.
A apresentação keynote, intitulada “Saúde cerebral na era da neurotecnologia”, foi proferida pelo neurologista hispano-americano Álvaro Pascual-Leone, da Harvard Medical School uma das principais referências internacionais em TMS e na utilização da neurotecnologia no tratamento de doenças neurológicas e na promoção do envelhecimento saudável. “A abordagem atual à saúde cerebral”, afirmou, “consiste em esperar que os sintomas apareçam para depois um especialista tentar tratar a doença. Precisamos começar a detetar a doença o mais cedo possível, mesmo em pessoas saudáveis, para aumentar a resiliência.”
“A inovação tecnológica mais importante na medicina são as tecnologias móveis”, sublinhou. “Hoje dispomos de ferramentas que permitem otimizar a avaliação do estado do nosso cérebro.” De certa forma, esta tecnologia pode ser vista como a nova “cadeira” onde o médico escuta o doente descrever os seus sintomas, mas passa também a ter acesso a dados longitudinais detalhados. As neurotecnologias, combinadas com a farmacologia, tornar-se-ão fundamentais tanto no tratamento das alterações cerebrais como na promoção da saúde cerebral.
O orador convidado Giacomo Koch, da Universidade de Ferrara (Itália), explicou como a TMS representa uma nova abordagem promissora para o tratamento da Doença de Alzheimer, com resultados encorajadores em ensaios clínicos. Em modelos animais, a TMS parece mitigar a disfunção das redes neuronais, reduzindo simultaneamente a morte neuronal e a deposição de beta-amiloide, a proteína associada à doença e que forma depósitos anormais no cérebro dos doentes.
Também Gonçalo Cotovio, psiquiatra e investigador clínico da Fundação Champalimaud, tem vindo a trabalhar com TMS em estreita colaboração com Oliveira-Maia. “A inovação na medicação para a saúde mental tem sido limitada, apesar de estas serem das condições mais incapacitantes”, afirmou durante a sua apresentação. “A TMS é focal, segura e não invasiva. Os doentes raramente interrompem o tratamento devido a efeitos secundários”, ao contrário do que acontece frequentemente com a medicação.
Imersão
A clínica irá também disponibilizar um conjunto de terapias digitais imersivas, incluindo abordagens de exergaming já validadas, bem como ensaios clínicos que recorrem à realidade virtual (VR) e a novas salas imersivas de captura integral de movimento corporal.
Fatemeh Molaei, da Neurotechnology Warehouse da Fundação Champalimaud, o braço de inovação do Centro de Neurotecnologia Restaurativa, apresentou o potencial da imersão no tratamento da POC através da criação de ambientes aversivos personalizados.
Existem, no entanto, vários desafios associados à implementação desta técnica. Para que possa ser utilizada de forma eficaz, os cenários virtuais terão de incluir a presença do próprio doente e dos terapeutas. Além disso, terão de ser suficientemente realistas para desencadear situações capazes de ativar os sintomas de ansiedade associados à POC. Como parte de um ensaio de viabilidade atualmente em curso, Molaei referiu o caso de uma mulher com “POC de contaminação”, que evita a própria cozinha por acreditar que está constantemente suja e sente necessidade contínua de a limpar. Criar uma recriação realista desse espaço, proporcionando simultaneamente uma sensação imersiva da presença da própria doente e de outras pessoas, é um dos desafios que os investigadores esperam ultrapassar.
Carolina Seybert, psicóloga clínica da Unidade de Neuropsiquiatria da Fundação Champalimaud e atualmente também ligada ao novo Centro, abordou outro tipo de imersão que será explorado no DNTx: a utilização de substâncias psicadélicas. Trata-se de uma forma de imersão mediada farmacologicamente, capaz de induzir estados alterados de consciência. Substâncias como MDMA (ecstasy) e psilocibina (cogumelos) foram aprovadas, respetivamente, para o tratamento da perturbação de stress pós-traumático e da depressão major, enquanto o LSD tem vindo a ser estudado para a perturbação de ansiedade generalizada. Seybert destacou particularmente os desafios relacionados com o consentimento informado e a segurança dos doentes submetidos a este tipo de tratamento.
Jogos contra a doença
Por fim, Silvia Salvalaggio, fisioterapeuta e investigadora do Centro DNTx, especialista em reabilitação neurológica, falou sobre o exergaming na reabilitação após AVC. O exergaming consiste na utilização de versões digitais e gamificadas de exercícios físicos, tornando o treino mais envolvente e motivador.
A primeira terapia digital deste género foi desenvolvida nos Estados Unidos, na Johns Hopkins University, por John Krakauer e a sua equipa, tendo posteriormente sido adquirida pela empresa MindMaze. O jogo MindPod Dolphin reproduz o comportamento de um golfinho que o paciente controla através do movimento do braço. Através de tarefas como perseguir peixes ou realizar saltos, é possível proporcionar níveis de treino, em termos de desafio cognitivo, exercício cardiovascular e prática de movimentos precisos do braço, difíceis de alcançar com fisioterapia convencional. “Temos apenas de tornar o treino intensivo divertido”, afirmou Krakauer.
Desde então, esta terapia foi aprovada pela FDA para reabilitação intensiva de elevada dosagem.
Outros exergames estão atualmente a ser desenvolvidos na Neurotechnology Warehouse, recorrendo a inteligência artificial generativa e a novos sistemas de captura de movimento.
Durante a sua intervenção, o co-diretor Marcelo Mendonça tinha também referido os exergames no contexto da sua área de especialização, a Doença de Parkinson (DP), sublinhando que, no Centro DNTx, será possível, através do desenvolvimento de jogos, monitorizar e medir continuamente as alterações motoras dos doentes com Parkinson (por exemplo, episódios de freezing da marcha). “Com o enquadramento e as ferramentas certas, conseguimos aliviar os sintomas dos doentes”, afirmou.
A voz dos doentes
Na sua apresentação, Álvaro Pascual-Leone abordou também a necessidade de envolvimento dos doentes, isto é, da integração das suas vozes em todo o processo, desde o desenho da investigação até ao desenvolvimento terapêutico.
Essa dimensão esteve presente nos testemunhos de dois doentes, uma mulher com Doença de Parkinson e um homem com POC de contaminação, que partilharam a sua experiência pessoal e percurso clínico. A doente com Parkinson descreveu anos de consultas e tentativas até conseguir obter um diagnóstico correto. Já o doente com POC explicou que, graças à TMS, consegue hoje sair de casa e levar uma vida normal, algo que não tinha conseguido alcançar apenas com medicação e psicoterapia.
“A inauguração do Centro de Neuroterapêuticas Digitais representa um passo importante na introdução de novas ferramentas terapêuticas baseadas em evidência científica para o tratamento de doenças cerebrais”, afirmou Oliveira-Maia no encerramento do evento. “Ao combinar realidade virtual e inteligência artificial, podemos criar experiências terapêuticas adaptadas a cada doente e capazes de evoluir ao longo do tempo com base nas suas respostas. Estas abordagens estão já a ser aplicadas em condições como dependência, depressão, ansiedade e doenças neurológicas, ajudando os doentes a treinar o cérebro de forma mais envolvente e mensurável. Ao ligar diretamente a investigação aos cuidados clínicos, queremos garantir que estas inovações sejam simultaneamente eficazes e acessíveis a quem delas mais necessita.”
No final do programa, os participantes foram convidados a visitar algumas áreas do novo Centro DNTx, com oportunidade para experimentar ou assistir a demonstrações de algumas das soluções terapêuticas atualmente em desenvolvimento. Entre elas, uma cozinha totalmente equipada, capaz de captar o movimento de todo o corpo, incluindo as mãos, enquanto o doente realiza tarefas do quotidiano, como cozinhar. Esta tecnologia permite quantificar objetivamente comportamentos do mundo real e avaliar de forma precisa a evolução dos doentes após intervenções de neuroterapêutica digital.
Texto de Ana Gerschenfeld, Health & Science Writer da Fundação Champalimaud. Editado por John Krakauer, co-diretor do recém-criado Champalimaud Institute for Brain Research and Repair.