30 Setembro 2026

Restaurar a visão de pessoas que cegaram devido a doenças da retina

O Prémio António Champalimaud de Visão reconheceu este ano o trabalho pioneiro de dois médicos-investigadores no desenvolvimento de terapias optogenéticas para a visão, que envolvem a inserção de um gene proveniente de algas em células da retina que não são naturalmente sensíveis à luz, ou que tinham perdido essa sensibilidade, com o objetivo de restaurar parcialmente a função da retina humana.

“Consigo ver as passagens de peões na rua, algo que não via há 18 anos”. José-Alain Sahel recordava, numa entrevista realizada este setembro na Fundação Champalimaud, as palavras surpreendentes do primeiro doente totalmente cego que tratou em Paris por uma doença degenerativa da retina, com uma terapia absolutamente inovadora denominada terapia optogenética.

Este avanço fundamental foi publicado na revista Nature Medicine em 2021. A técnica tinha sido desenvolvida por Sahel – oftalmologista e investigador francês nascido na Argélia, da Faculdade de Medicina da Universidade de Pittsburgh e director fundador do Institut de la Vision, em Paris – em colaboração com o seu amigo e colega de longa data Botond Roska, médico e investigador biomédico húngaro-suíço, director fundador do Instituto de Oftalmologia Molecular e Clínica em Basileia. Agora, receberam em conjunto o Prémio António Champalimaud de Visão, no valor de um milhão de euros, pelo seu trabalho pioneiro.

O doente tinha 58 anos e estava completamente cego desde os 40. Sofria de retinite pigmentosa, uma forma hereditária de degeneração da retina que destrói progressivamente os cones e os bastonetes, as células retinianas sensíveis à luz localizadas na parte posterior dos olhos e que nos permitem ver.

A optogenética é um método de engenharia genética que tem vindo a ser utilizado nos últimos 20 anos ou mais, no laboratório, para estudar o cérebro de animais, das moscas-da-fruta aos ratinhos. Consiste na introdução selectiva, nos neurónios, de um gene proveniente de algas, que codifica uma proteína sensível à luz, de modo a tornar esses neurónios sensíveis à luz. Depois, ao incidir luz sobre os neurónios que expressam o gene, torna-se possível ativá-los ou desativá-los à vontade, dependendo de como, onde e quando esses genes são expressos, o que permite aos neurocientistas controlá-los e estudar a sua função.

Roska e Sahel têm trabalhado em conjunto, durante cerca de duas décadas, no desenvolvimento da “terapia optogenética”, que consideravam uma forma promissora de restaurar a função retiniana em doentes cegos. “Eu já trabalhava nisso desde 2005: a optogenética [da visão] era uma das coisas óbvias a fazer”, afirmou Roska, também numa entrevista. “Mas quando ia a conferências e dizia às pessoas que gostaria de aplicar a optogenética a doentes, diziam-me que tinha enlouquecido. Introduzir uma proteína das algas em seres humanos!?»

“A única pessoa que me levou muito a sério foi José [Sahel], que me disse: ‘Vamos trabalhar juntos e levar isto às pessoas’”, acrescenta. “As pessoas riam-se de mim, dizendo que era ridículo”, recorda pelo seu lado Sahel. “Eu estava bastante desanimado.”

De facto, a terapia optogenética envolve a inserção, nas células da retina (cones, células bipolares ou células ganglionares), de um gene proveniente de algas que tem a capacidade de transformar essas células – que não são naturalmente sensíveis à luz (ou que perderam essa capacidade) – em células fotossensíveis que imitam os fotorreceptores da retina que foram perdidos devido à doença. Essas células deveriam, assim, tornar-se capazes de transformar estímulos luminosos em sinais eléctricos, que seriam então enviados ao cérebro para processamento visual.

Os obstáculos tecnológicos eram enormes. Roska e Sahel tiveram de começar do zero, sendo o objetivo final transpor a tecnologia do laboratório para a clínica. “Diria que a investigação experimental [inicial] foi feita no meu laboratório, mas temos vindo a realizar todo o trabalho de transposição em conjunto com José”, observou Roska.

Os dois investigadores trabalharam primeiro com ratinhos, depois com organóides retinianos humanos (estruturas cultivadas in-vitro a partir de células humanas, que se assemelham à retina) e, finalmente, em retinas humanas mantidas vivas post-mortem. Quando a provável segurança da intervenção para os doentes foi demonstrada através da sua aplicação em primatas não humanos, injectaram o gene nos olhos de pessoas totalmente cegas.

O trabalho exigiu um uso intensivo de tecnologia. Entre outras coisas, os investigadores tiveram de introduzir o gene das algas nas células certas da retina para que estas o expressassem e se tornassem sensíveis à luz; tiveram de conceber o vector adequado (a partir de um vírus inofensivo) para introduzir e expressar o gene nessas células. Isto levou anos. “É puramente tecnologia e aperfeiçoamento da tecnologia”, diz Roska. “Não apostámos na sorte; apostámos no trabalho árduo!», acrescenta Sahel.

A terapia optogenética implica uma injeção no olho. No caso do primeiro doente, demorou meses até este recuperar algum grau de visão. Ele e os outros doentes do ensaio clínico, cujos resultados deverão ser publicados em outubro deste ano, “conseguem encontrar objetos, apontar para eles, e metade deles consegue pegar neles e contá-los”, explica Sahel. “Alguns também conseguem encontrar uma porta e seguir uma linha.”

Os doentes precisam de usar óculos especiais para conseguirem ver, porque os seus olhos são incapazes de se adaptar à luz ambiente. A proteína de alga específica utilizada na terapia optogenética detecta luz âmbar, pelo que os óculos têm de estar equipados com uma câmara que capta e projeta imagens visuais na retina em comprimentos de onda de luz âmbar.

Qual é o futuro da optogenética? “Penso que o que realmente se segue agora é a optimização”, diz Roska, acrescentando que um dia serão desenvolvidos óculos inteligentes para substituir a atual versão dos óculos. A resolução visual também deverá melhorar, permitindo aos doentes reconhecer rostos e até ler. “Estamos apenas no início de um longo caminho e, provavelmente, nos próximos 50 anos, surgirão muitas inovações tecnológicas, biotecnológicas, em termos de óculos e de todo o tipo de áreas, para melhorar a técnica de forma muito gradual”, salienta. “Estamos na fase de ensaios clínicos. E o que espero é que, a dada altura, a tecnologia seja aperfeiçoada ao ponto de se tornar fácil de utilizar.”

A terapia optogenética poderá também ser aplicada a outras doenças degenerativas da retina, nomeadamente as não hereditárias, como a degenerescência macular da idade, a causa mais comum de cegueira na Europa e na América do Norte.

Ao longo da sua carreira, Sahel também explorou outras vias de investigação para a melhoria da visão, desenvolvendo retinas prostéticas e terapias para preservar e restaurar a função dos cones sobreviventes (as células que permitem a visão a cores de alta resolução). “Há muito mais trabalho a fazer”, salienta.

Antes do início da sua colaboração, Roska, pelo seu lado, identificou novas interligações neuronais essenciais à organização da visão na retina e foi pioneiro no mapeamento desses circuitos. Recorreu a métodos genéticos para introduzir proteínas fotossensíveis em células retinianas e, mostrando a seguir que, em animais desprovidos de fotorreceptores normais, esta estratégia permitia activar as células da retina que transformam os sinais luminosos em sinais eléctricos e os enviam para o cérebro – “restaurando”, por assim dizer, a sua visão. 

“Estamos a analisar doenças humanas, a tentar compreender a sua base molecular e fisiológica e a transformar esse conhecimento em terapias”, diz Roska. “Muitas dessas terapias irão provavelmente falhar. Mas alguém tem de começar a fazê-lo.”

“Parte da minha investigação não tinha sido planeada», salienta Sahel. “Aconteceu simplesmente porque conheci um doente que precisava de uma determinada coisa. Tudo o que faço é motivado pelos doentes. A minha principal motivação para a investigação é poder dizer aos doentes que não desistimos, que continuamos o nosso trabalho! O Prémio Champalimaud de Visão é o tipo de reconhecimento que nos incentiva a continuar.”
 

Texto de Ana Gerschenfeld, Health&Science Writer da Fundação Champalimaud
 
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